Página 1 de 1

CRÔNICAS DIANA MARTINS - REFLEXÕES SOBRE SER GP

Enviado: 10/10/2019
por Diana Martins
Não sei se esse é o tópico adequado, mas não sabia bem em que tópico postar...

Fiquei pensando durante um tempo se deveria postar ou não, sei que muitas pessoas vão ler e pensar que é mimimi, mas acontece que me identifiquei muito com ele, tanto sobre ser abandonada por algumas pessoas depois que descobriram que sou gp quanto sobre a desumanização, me lembrei de quando conversando com um cliente, citei minha mãe e ele ficou MEGA espantado por eu ter uma família, ué puta tem família? Então, vamos ao texto:

Dentro da pornografia, é tudo muito solitário

Quando eu falo que trabalho com pornografia, a maioria das pessoas fica curiosa. Alguns ficam entusiasmados, me perguntam sobre os bastidores. A maioria me faz muitas perguntas. Alguns ainda ficam enojados, e, considerando todas as notícias sobre o assunto, quem não ficaria?

Quando eu digo que o mundo pornográfico é solitário, quero dizer que somos abandonados pelo caminho. A minha maior prova disso foi quando uma amiga de infância disse que não queria mais contato comigo. E depois dela, outros amigos também foram embora com promessas e frases prontas de "Eu não acredito que você faz isso mesmo". Nem preciso mencionar a quantidade abismal de nós que são abandonados pela própria família. A quantidade de colegas que foram obrigados a sair de casa. A quantidade de amigas que vi definhando por não terem apoio dos pais. Dos primos, dos irmãos, dos avós. De qualquer pessoa.

Para os que são LGBT como eu, é como uma segunda saída de armário, tão dolorosa e difícil quanto a primeira. "Eu não te criei pra isso". "Você é bonita demais pra isso". "Você não precisa disso, você tem capacidade de fazer outra coisa".

"Eu nunca mais vou conseguir olhar para você como antes".

Porque no fim das contas pornografia é degradante, sexo é sujo e trabalhar com isso por livre e espontânea vontade não existe. Como se no capitalismo trabalhar por livre e espontânea vontade existisse de qualquer forma. Todas as pessoas que eu conheço trabalham por necessidade, seja um dentista ou uma atriz pornô. O que difere um dentista de uma atriz pornô é que o senso comum, até mesmo das pessoas que dizem nos ajudar, acha que somos coitadinhos. Que dizem que somos explorados. Eu fui explorada em um trabalho CLT, com todos os meus direitos supostamente assegurados.

Mas eles não enxergam isso. Nem quem conhecemos, nem quem não conhecemos.

Quando eu digo que o mundo pornográfico é solitário, quero dizer que cada um de nós grita sua própria batalha. Se somos abandonados por quem mais amamos, te peço para imaginar o que acontece conosco no quesito "desconhecidos".

Outro dia eu estava no Instagram respondendo perguntas daquela caixinha que colocamos nos stories, e uma das perguntas foi sobre minha adolescência e tempos de escola, que desencadeou uma grande discussão sobre bullying e o que eu sofri. Sempre que me surge a oportunidade eu digo o quanto odiei minha fase escolar e o quanto ela me fez sofrer, e ali não foi diferente. Recebi relatos horríveis sobre bullying, sobre notas, sobre como meus seguidores foram tratados. Recebi muito apoio também.

Já faz alguns dias que aconteceu, mas uma das mensagens continua na minha cabeça: "Achei importante você falar sobre essas coisas com a gente. Te fez humana para mim".

Te fez humana para mim.

Quando eu digo que o mundo pornográfico é solitário, quero dizer que não somos vistos como seres humanos pela maioria das pessoas, até mesmo as que gostam da gente. Não por maldade, antes fosse. Mas porque quem está em frente às câmeras, sejam elas profissionais ou webcams, foram pintados como máquinas de sexo. O problema é o costume. Costumes de solidão.

Isso é algo que eu penso com frequência. Uma vez fui pedir dicas para uma amiga sobre redes sociais e como divulgar meu trabalho, e ela me soltou um "Você tem que fazer com que eles pensem que você pensa em sexo o tempo todo. Isso atrai as pessoas". Mas acontece que eu não penso em sexo o tempo todo, que eu não quero pensar, que eu não quero ser obrigada a pensar. E o pior de tudo é entender a lógica, e entender o motivo de os trabalhadores sexuais que conheço continuarem perpetuando tais pensamentos.

E é solitário também porque sei que minha luta permanecerá silenciosa por alguns anos, vai ser ouvida daqui muito tempo, assim como muitas outras lutas que já existiram. Que enquanto ela não for ouvida, nunca vai ser reconhecida como uma luta. De qualquer forma, apesar de todos os pesares que escrevi aqui, eu não trocaria esse mundo por nada. Eu não trocaria o que amo fazer, descobrir e desestruturar, só porque o trabalho é difícil. Eu não sou de desistir, e felizmente muitos ao meu redor também não são.

Quando eu digo que o mundo pornográfico é solitário, eu não quero dizer que nós do ramo não fazemos companhia uns aos outros. Quero dizer que vocês, de fora, é que nos deixam sozinhos.



O texto completo aqui>> https://www.nittie.com.br/post/pornogra ... M12j7ezNF0